É incrível como ainda não consegui ouvir um único comentário de alguém que não pertence ao Governo, a dizer bem das medidas anunciadas na Sexta-feira passada. Por absurdo que seja, já ouvimos uma mão cheia de personalidades dos partidos que formam o Governo, a criticar o pacote anunciado: Bagão Félix, Alexandre Relvas, António Capucho, Marcelo Rebelo de Sousa, etc.
O termo do título deste post - medidas de austeridade - é já uma das principais expressões usadas hoje em dia. Para que toda a gente saiba o que têm andado a fazer nos últimos anos, visitem a seguinte página, que faz quase um diário de bordo da austeridade:
Durante esta semana este assunto vai continuar a ser largamente debatido, até porque vêm aí novidades. É óptimo porque me dá matéria constante para escrever neste blog, mas é mau porque passamos todos a sofrer mais um bocado.
Do que tenho visto na televisão, o calendário para esta semana será o seguinte:
Terça-feira, dia 11 de Setembro, fala o ministro das finanças Vítor Gaspar a propósito da quinta avaliação da Troika. A expectativa é que apresente mais um conjunto de medidas.
Quarta-feira, dia 12 de Setembro, termina oficialmente a visita da Troika a Portugal. Não se sabe se vai haver algum discurso da parte deles.
Quinta-feira, dia 13 de Setembro, Pedro Passos Coelho é entrevistado na RTP1 depois do Telejornal. Serão 50 minutos para explicar com mais detalhe as fantásticas medidas anunciadas na sexta-feira passada.
Têm o plano à vossa disposição, agora é só tomar uns Xanax e aguentar até sexta-feira :)
Há cerca de uma hora atrás aconteceu-me um evento que eu pensava ser impossível: fui roubado através da visualização de um canal de televisão!
Com efeito, o discurso de Passos Coelho superou todas as minhas expectativas, o que comprova que a raça dos políticos tem evoluído ao longo dos tempos. Começou com um discurso maçudo e carregado de bullshit, a elogiar a paciência do povo português (que é nenhuma) e como nos tínhamos de esforçar para resolver os "nossos" problemas (não me lembro de ter criado algum).
Várias conclusões espectaculares se podem retirar das palavras de Passos Coelho e que deverão sobretudo ser ensinadas às crianças portuguesas, no sentido de não chegarem àquele estado mental. Pois não é que ele se conseguiu contradizer pelo menos 3 vezes.
Elogiou a decisão do BCE sobre a compra de dívida dos países em dificuldades, quando no final de Junho deste ano afirmou em pleno parlamento que não apoiava esta medida. Quis seguir a opinião da Sra Merkel, não vá ela atiçar um rottweiler de seguida.
Afirmou que a equidade significa nivelar por cima e não por baixo, para logo a seguir anunciar que também o sector privado leva um soco no bucho. Então o que é isto senão nivelar por baixo?
"Rejeitámos um aumento de impostos". Tecnicamente a subida da Segurança Social até pode nem ser um imposto, mas que esta frase cai muito mal lá isso cai.
Mais uma vez Passos Coelho conseguiu atingir exactamente os que costumam arcar com as despesas. Quando se trata de aplicar medidas aos trabalhadores surge com números exactos, precisos e irreversivelmente decididos. Quando fala sobre os grandes grupos económicos não soube precisar número nenhum, caso contrário os portugueses ainda lho podiam cobrar.
"Redução das rendas excessivas". Mas quanto, meu palerma?
"Redução do número de fundações". Desta vez até disse a palavra "número, só faltando mesmo dizer qual era.
Não só não soube quantificar quantos é que vai cortar das PPPs, das Fundações e da electricidade como ainda lhes garantiu menos despesa com os trabalhadores com a descida da TSU. Não falou em qualquer taxação das grandes fortunas, nem qualquer agravamento dos impostos sobre o capital. Em Portugal só dá para ser uma de duas coisas:
Pobre - recebendo subsídios durante a vida toda, mas pouco dignificante.
Rico - recebendo rendas ou diminuindo os custos do trabalho.
Passos Coelho chega a dizer que cabe às empresas reflectir estas medidas na vida das pessoas. Mas alguém acredita que uma empresa vai agora contratar às paletes? As empresas não estão a contratar por falta de dinheiro, mas sim por falta de clientes. Ou que, por gastar menos dinheiro, vai praticar preços mais competitivos nos seus produtos? Claramente não conhece a grande maioria das empresas portuguesas.
Consegue também dizer que a redução dos custos do trabalho é para o nosso bem. Para que as nossas empresas sejam mais competitivas em relação ao estrangeiro. Se a competitividade se ganhasse apenas com a redução dos salários nós já seríamos um dos países mais produtivos da Europa. Este idealismo não leva o país no bom caminho e só temos a perder com estes políticos.
Tudo isto é revoltante, mas ainda nem foi apresentado o orçamento de estado para 2013. Dia 15 de Outubro vamos ficar a conhecer mais uma quantidade engraçada de medidas, entre as quais se deverá destacar a redução do número de escalões do IRS, na qual o Estado não vai ficar a perder - aliás, nunca fica.
O que me assusta é que o Estado está a ficar um gatuno mais esperto. Até agora era aumentar o IVA à parva para arrecadar mais receita. No entanto, não pensaram que sendo um imposto sobre o consumo, as pessoas podiam começar a consumir menos ou até não declarar as suas despesas. Desta vez foram cortar onde não é mesmo possível fugir e que são os salários.
Parece-me que este governo vai ficar para a história como o que mais medidas impopulares tomou. Quer-me parecer que daqui por ano estaremos a ter a mesma conversa sobre as novas medidas de austeridade. Este ciclo vicioso muito dificilmente acabará e estes tubarões só estão a aproveitar a onda para escravizar ainda mais o povo. Curiosamente nada se falou sobre o programa da Troika ter sido um falhanço, portanto eles acham que a ideologia deles continua a funcionar.
A única coisa com que me posso contentar é que em 2015 vai ser um ano bom para toda a gente. Não sei porquê, mas em ano de eleições as contas públicas têm sempre uma margem para aumentos salariais e diminuição de impostos. Espero que nessa altura toda a gente se lembre desta raça de políticos (e das outras também) e vá votar em branco. Prefiro colocar pessoas novas no poleiro, do que estes meninos que desde cedo vão para as Juventudes Partidárias para lá poder chegar.
Recentemente saiu o The Global Competitiveness Report 2012 que apresenta um conjunto de indicadores sobre 144 países. Daqui muitas conclusões se podem tirar, mas a que mais se destacou nas notícias foram as infraestruturas rodoviárias.
Se há coisa que Portugal se pode orgulhar é de ter estradas de alto nível. Aliás, o nível é tão alto que só somos ultrapassados pela França, Emirados Árabes Unidos e Singapura. Qual Suiça, qual Austria, qual Alemanha?
Isto é o resultado do trabalho de sucessivos governos que quiseram:
aumentar temporariamente o emprego em Portugal (daí o Sócrates prometer os 150.000 postos de trabalho)
fazer negociatas em que o Estado fica largamente a perder, mas que "dão retorno" aos políticos envolvidos
ganhar eleições, argumentando que deixaram muita obra feita
Eu cá sinto-me envergonhado por o meu país ficar conhecido internacionalmente como o que de melhor temos são estradas. É que nem sequer temos dinheiro para o carro, gasolina e portagens para as podermos aproveitar. Vão simplesmente ficar ali por usar e a continuar a dar rentabilidades à banca e às construtoras.
Algumas conclusões interessantes sobre Portugal a retirar do relatório, num total de 144 países:
Desperdício de dinheiros públicos: 11º a nível mundial (!!) mas a contar do fim. Na realidade estamos na posição 133.
Estávamos muito mal em termos de relações laborais (top 20 a contar do fim). No entanto não percebo porque não puseram um indicador para o salário médio pago.
Qualidade do ensino da matemática e ciência: 94º. Seria uma boa aposta para produzir mais mão de obra altamente qualificada.
Largura de banda (kb/s por utilizador): 11º & Pessoas a usar a Internet: 48º. Penso que é dos factores mais positivos em Portugal e que contribui bastante para a nossa evolução como sociedade.
Funcionamento dos tribunais: 121º. Um dos principais obstáculos ao investimento privado.
Nos vários indicadores de saúde estamos quase sempre posicionados dentro do top 30.
Algumas conclusões interessantes sobre alguns indicadores:
Os USA têm o maior PIB do mundo, que é o dobro do 2º (China), o triplo do 3º (Japão) e o quíntuplo do 4º (Alemanha)
O maior PIB per capita (ver figura) é do Luxemburgo com uns impressionantes 113.533 dólares por pessoa.
A Suiça aparece em quase todos os top 10.
O total da dívida pública do Japão em percentagem do PIB é de 229,8. No entanto eles conseguem passar mais despercebidos do que nós.
A maior flexibilidade do salário dos trabalhadores é no Uganda. Dá para imaginar porquê :P
A Islândia tem 95% da população a usar a Internet, enquanto nós só temos 55%. Isto significa que até os avozinhos de lá usam Internet. E eu que pensava que era impossível ensinar os mais velhos...
Há montes de défices e estamos mal em quase todos eles. Apenas o défice externo merece ser celebrado e muito! Olhando para os números da tabela abaixo dá para perceber que estamos quase a ter um excedente na balança comercial externa:
Há quem tente fazer disto uma má notícia, dizendo que o défice só está assim tão bom porque existe uma recessão profunda na economia portuguesa. E não deixam de ter razão! Contudo, há que perceber que esta brutal diminuição das importações é também um factor bastante positivo para nós. Não podemos, por exemplo, andar a trocar de carro todos os anos ou de dois em dois anos. A crise está a provar que, quando o português é forçado a mudar os seus hábitos (neste caso pelas piores razões), ele consegue. Porque não continuar com estes hábitos quando a crise acabar (ahahah vai acabar vai...)?
Haverá com certeza outras coisas que não deveríamos parar de importar, sobretudo aquelas que fazem gerar emprego por cá, mas é um efeito colateral indesejado da crise. Os portugueses nunca foram habituados a poupar, nem tinham razões para isso (graças aos créditos ao preço da chuva). Dir-me-ão: ah mas os salários são uma porcaria! Pois são, mas com algum sacrifício há que conseguir poupar uns trocos. Quantas vezes não vemos um vizinho que sabemos que está desempregado a ir tomar o pequeno-almoço fora? Isto são hábitos de quem acha que o dinheiro estica para sempre. Eu tenho pena é das famílias que ganham o salário mínimo, matam-se a trabalhar e por mais que tentem poupar não conseguem. Essas sim merecem a minha solidariedade.
Fazendo um pequeno exercício de matemática, observem o que é possível poupar ao longo de 20 anos, colocando de lado 100€ todos os meses:
20 anos * 12 meses * 100€ = 24000€
Constituindo depósitos a prazo a 4% TANB e recapitalizando os juros conseguem um valor superior: cerca de 33000€.
Com estes valores já conseguem ter uma ideia do pé-de-meia que é possível fazer em meia vida de trabalho.
Todos os dias gosto de ler as notícias sobre a troika para ver se finalmente têm uma ideia brilhante para acabar com a crise, mas ainda não tive sorte. Sou sempre brindado com pérolas de sapiência e hoje não foi diferente:
Estou confundido com a primeira. Então o memorando é nosso? Podemos rasgá-lo logo à noite e amanhã acordamos sem crise? Faz-me lembrar um colega que se desmarcava de tudo e mais alguma coisa e quando dava a desculpa notava-se perfeitamente que estava a aldrabar.
Com que então fomos nós que resolvemos cortar os subsídios de férias e natal, aumentar brutalmente o IVA e diminuir os tectos das despesas no IRS? Epá, ganhem tomates para admitir de uma vez por todas que as vossas soluções para resolver a crise só têm piorado tudo.
Sra Troika, diga-me lá em que país é que vocês aplicaram as vossas metodologias e agora é um país em crescimento? É que até os que são considerados "bons alunos" estão mergulhados em trampa até aos cabelos...
Quanto à segunda, é fantástico como se conseguem imaginar medidas que lixem sempre os mesmos. Até há pouco tempo ainda era daqueles que acusava os partidos de esquerda de terem sempre a mesma cassete a tocar (e ainda continuam a ter muito), mas há que dar razão à frase "quem se lixa são sempre os mesmos". Desde crianças que nos dizem que se queremos ser alguém na vida que temos de trabalhar muito. Mal chegamos à hora de ser alguém cortam-nos constantemente as pernas e lá se vão os sonhos e as esperanças. Quando é que há uma medida que abranja toda a população? Se houver um sentimento de equidade e justiça, as pessoas não perdem tempo a discutir o dia inteiro e produzem muitíssimo mais. A justiça é constantemente atropelada por esta malta que se julga superior e não se apercebem que é o que mais afasta os vários sectores da sociedade.
Eu sei que é impossível agradar a gregos e a troianos, mas tentem aplicar estas medidas nos troianos a ver se eles gostam.
No dia em que a troika sair de Portugal vou jantar fora para celebrar. Não posso é depender dessa refeição para sobreviver...
É incrível o que é possível fazer no meio financeiro sem se ser preso. Se uma pessoa roubar 200€ vai presa, mas se roubar 200€ milhões é resgatada pelos políticos. Isto porque se desenvolveu uma ideia na sociedade que me irrita profundamente: "too big to fail". É uma mensagem clara aos senhores do dinheiro, que podem perfeitamente brincar e arriscar o dinheiro dos depositantes sem se preocupar. Se a coisa correr mal, são os próprios contribuintes/depositantes que vão salvar o dinheiro destes senhores.
No fundo, é perfeitamente possível extrapolar o que é retratado neste filme sobre os bancos americanos para os portugueses. Está à vista de todos que existem poderes instalados, mas são como os gambuzinos: ninguém os consegue apanhar.
Há uma desregulação completa dos meios financeiros, que impede que a verdadeira economia se desenvolva. Contudo, quem poderia fazer alguma coisa para travar algumas loucuras está normalmente interessado em ir para lá trabalhar daqui por uns anos e por isso fica tudo na mesma.
Um dos últimos exemplos foi o HSBC e a taxa LIBOR (ver artigo). Mas alguém acredita que eles vão ser severamente penalizados? No máximo passam-lhes uma multa que nem deve chegar a 1% do lucro que obtiveram e escrevem uma lei super vaga para tentar regular esta actividade. Infelizmente vivemos num mundo em que quem tem dinheiro é que manda, enquanto os outros brincam às democracias...
Claramente, o modelo de privatização - recentemente apresentado por António Borges - da estação televisiva pública é mais uma maneira de entregar aos privados o património do país, sem beneficiar rigorosamente nada. Trata-se de fazer uma concessão a alguém, entregando o dinheiro pago pelos portugueses na factura eléctrica e esperar que esse alguém passe conteúdos do interesse nacional.
Não é de agora que sou contra a privatização de tudo o que é público. Os políticos têm o dom de encher as cabeças das pessoas com ideias que lhes dá jeito e as privatizações são uma delas. "Temos de diminuir o peso do estado na economia". Mas quem é que determina qual o peso que um estado deve ou não ter na economia? Por que raio devemos vender empresas públicas rentáveis? (sim, porque os abutres privados só aparecem para comprar empresas públicas que dêem dinheiro, que é como quem diz as empresas com um monopólio gigantesco nas suas áreas de actividade). É para diminuir o défice que tanto se fala? Não. O dinheiro das privatizações não entra para estas contas. É para diminuir a dívida pública? Parece que sim, mas estamos a falar duma dívida na ordem dos 200 mil milhões de euros. Tomando como exemplo a mais valiosa empresa privatizada neste ano teríamos de vender cerca 74 EDPs para reduzir a dívida a zero.... Ou seja, estamos a encaixar dinheiro agora mas a longo prazo ficaremos a perder imenso, o que do ponto de vista de gestão é irracional.
Voltando à RTP, é interessante analisar o histórico das suas contas. Pelo que tem aparecido nos jornais, a RTP deu prejuízo ao longo de duas décadas, estando agora num ponto de inversão. No último ano ocorreram grandes reestruturações que levaram à redução brutal da despesa, permitindo obter lucro em 2011. Estão a querer dizer-me que depois deste esforço todo para chegar a um balanço positivo se vai privatizar a RTP? E tudo porque "o povo português votou neste programa eleitoral"? Então e aqueles que votaram para não ficar sem os subsídios de férias e de natal? Só tentam cumprir as más promessas e as boas deixam-nas para a campanha eleitoral seguinte? É por estas e por outras que eu acredito que dentro de 5 ou 10 anos, apenas uma pequena minoria dos portugueses irá às urnas...
Deixo algumas sugestões para o que deveria ser um serviço público de televisão:
Deve apresentar apenas concursos que promovam a cultura geral.
Não repetir até à exaustão um tipo de programa (por exemplo os 92 programas de cantar e 123 programas de dançar)
No que diz respeito ao futebol, transmitir apenas os jogos da selecção. Embora goste de ver futebol de clubes, penso que não deve fazer parte do serviço público.
Evitar contratar apresentadores ou apresentadoras por ordenados milionários. Usar esse dinheiro para construir programas de qualidade que promovam Portugal.
Moderar o negativismo nas notícias: é contagiante e só serve para aumentar a revolta das pessoas.