domingo, 30 de setembro de 2012

Sr. Borges

Mais uma vez o senhor António Borges resolveu dar um ar da sua graça e despiu a casaca por completo. Leiam este magnífico excerto:

Que a medida é extremamente inteligente, acho que é. Que os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas.


Neste mundo só há duas hipóteses para quem acha que todos os outros são ignorantes: um génio ou uma besta. Eu cá fico-me pela segunda.
Finalmente tivemos a prova daquilo que se andava a falar na comunicação social, que é saber quem deu esta fantástica ideia às marionetas do Governo. Nem sequer é o Vítor Gaspar que tem maior poder. São dois não-ministros deste Governo: António Borges e Braga de Macedo. São eles que defendem desde o início a recuperação do país por via da redução de salários e que andamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Tanto disseram esta frase, que conheço quem comece a achar que realmente é verdade. Quem andou a viver acima das possibilidades foi o Estado e muito graças a conselheiros desta raça.

Além de achar toda a gente ignorante, consegue ainda desafiar a língua portuguesa, senão vejam:

Não se trata de transferir rendimentos de ninguém para ninguém


Como é que não é uma transferência?
Deixo aqui a sugestão ao Sr. Borges para me "transferir" 90% do seu dinheiro para a minha conta bancária. Se para ele não é uma transferência então ficamos todos a ganhar :)

Eis um homem!


sábado, 29 de setembro de 2012

Esperança média de vida

Em Espanha preparam-se para aumentar a idade da reforma para os 67 anos, o que tem sido levado a mal por todos os trabalhadores. Eu, como um deles, tenho uma opinião dividida sobre o assunto. Por um lado é natural que após 40 e tal anos de trabalho, uma pessoa queira descansar confortavelmente. Por outro lado, para que uns descansem, os outros terão de levar com mais impostos nos seus rendimentos para suportar os reformados.

Foi por isso que foi ao Eurostat verificar quais são as esperanças médias de vida nos países europeus. Vários factos que concluí:

  1. As mulheres continuam a viver mais uns anos que homens (entre 4 e 10 mais ou menos).
  2. Portugal tem das piores esperanças médias de vida da Europa.
  3. Pode parecer injusto, mas as mulheres têm mais capacidade para trabalhar mais anos do que os homens. Se tivermos todos de trabalhar até aos 67, as mulheres portugueses terão oportunidade de gozar 11 anos de reforma em média, enquanto os homens se ficam pelos 4.

Não me parece descabido que se aumente mais a idade a reforma das mulheres do que a dos homens. Não direi na proporção, mas talvez mais um ano já seria mais justo.

Esperança média de vida das mulheres na Europa:




Esperança média de vida dos homens na Europa:


Transatlantic Trends 2012 Partners

Na semana passada saiu o relatório "Transatlantic Trends 2012 Partners" que consiste num estudo sobre a opinião pública em várias matérias. Podem consultar mais estatísticas no link acima, mas deixo aqui alguns dos gráficos mais interessantes.

O gráfico 7 mostra a percepção das pessoas sobre o impacto que a crise está a ter nas suas vidas. Portugal aparece em segundo lugar, como um dos países que mais tem sofrido com a crise (tanto em termos absolutos como em relação a 2011).

O gráfico 8 indica a aprovação do povo sobre a maneira como a economia está a ser gerida no seu país. Os espanhóis são os que têm a pior opinião e isso tem-se reflectido nos cerca de 20 p.p. que Mariano Rajoy perdeu nas últimas sondagens. Portugal aparece em 5º lugar.

O gráfico 9 traduz a opinião de que o seu país tem um sistema económico justo e equilibrado para todos. Como é hábito em indicadores positivos, Portugal situa-se nos últimos lugares, apenas ultrapassado pela Itália, Bulgária e Eslováquia.

O gráfico 10 apresenta uma estatística sobre o que as pessoas consideram ser o caminho em relação à despesa pública:
  1. Diminuir a despesa
  2. Manter o nível de despesa actual
  3. Aumentar a despesa
Portugal é esmagadoramente a favor da redução da despesa pública e por isso surge em primeiro lugar. É interessante analisar este indicador no caso da Alemanha. Mesmo tendo sucessivos superavits orçamentais e da balança comercial ao longo dos anos, a opinião pública considera que se deve baixar a despesa. Parece que o rigor faz mesmo parte da cultura desta gente...


Um indicador que eu andava à procura desde há uns tempos para cá está ilustrado no gráfico 13: sair ou não sair da zona euro. De repente parece que estamos todos de acordo que o euro foi uma má invenção. Os países sob intervenção financeira têm mais razões para ter esta opinião do que aqueles que têm pago juros negativos nas obrigações que emitem. Julgo que ainda iremos todos continuar neste casamento por mais uns tempos, mas com ainda mais violência doméstica.

Um último gráfico que achei curioso foi a opinião dos europeus sobre os candidatos americanos à presidência. Parece que por aqui ninguém gosta de republicanos ricos e idiotas.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Alternativas à austeridade

Gosto de ouvir a opinião do Dr Paulo Morais que, por diversas vezes, se tem insurgido contra as políticas dos sucessivos governos. Desta vez encontrei um artigo de Maio em que apresenta alternativas à austeridade, embora considere que algumas não são nada fáceis de executar. Numa altura em que toda a gente anda a perguntar uns aos outros sobre medidas alternativas, fica aqui transcrito o artigo de opinião no Correio da Manhã:


"Em primeiro lugar, devem ser renegociadas todas as parcerias público-privadas rodoviárias, que chegam a ter rentabilidades garantidas superiores a 14%; o Estado terá, desde já, um ganho anual de cerca de três mil milhões de euros. A segunda medida consiste na imediata reestruturação da dívida pública, bastando substituir os contratos de crédito ruinosos, e assim poupar cerca de dois mil milhões. Não é admissível que o Estado continue a pagar anualmente em juros nove mil milhões de euros, mais do que gasta com o Serviço Nacional de Saúde.

Impõe-se ainda reduzir os alugueres e rendas imobiliárias que o Estado paga neste momento. São centenas de milhões de euros a mais em cada ano! Numa fase em que o mercado imobiliário está em baixa e as rendas nos privados vêm diminuindo progressivamente, porque não baixa a despesa do Estado nesta rubrica? Ainda por cima, quando muitos contratos foram inflacionados para favorecer proprietários amigos!

Outra área onde se poderia também obter um ganho de mil milhões é a da formação profissional. Grande parte da formação financiada limita-se a manter os formandos ocupados, enquanto a maioria dos recursos é desviada para o enriquecimento de alguns ‘empresários’ mais habilidosos.

Se o governo tiver coragem para implementar este tipo de medidas, pode poupar anualmente até sete mil milhões, sem penalizar os cidadãos. E muda definitivamente a estrutura da despesa do Estado, retirando privilégios aos poderosos.

Só quando os governantes tiveram a coragem de ousar este caminho, Portugal progrediu. Foi assim com D. João II, que pensou os Descobrimentos, ou com o Marquês de Pombal, instituidor do Vinho do Porto, que limitaram regalias às grandes famílias do seu tempo – como os Duques de Bragança e Viseu ou os Távora. Se não souber ler a história, Passos Coelho será apenas mais um mau governante, dos muitos que os portugueses já tiveram de suportar."

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Capital ou trabalho: o que taxar?

Praticamente tudo é taxado em Portugal e parece que a tendência é para aumentar. Recentemente ouvimos a CGTP a propor uma taxa sobre o capital, o que na minha opinião, é perfeitamente justo no cenário em que nos encontramos.

CGTP propõe impostos sobre capital e novo escalão de IRC

Logo após esta sugestão vieram logo deitar abaixo o Arménio Carlos dizendo: "lá vem o comuna outra vez". Eu não sou comunista, mas desta vez a CGTP acertou em cheio na medida que deve ser tomada. De facto, é possível que algum capital saia do país por causa disso, mas como costumo dizer: é a vida. Tem acontecido exactamente a mesma coisa no mercado laboral. Enchem os rendimentos do trabalho com impostos e as pessoas emigram.

Resta então saber o que é mais importante para a nossa economia: capital ou trabalhadores. Eu cá acho que os dois são igualmente necessários, por isso acho que devem ser taxados em proporções semelhantes. Se a medida englobar apenas a compra e venda de acções, então quem ficará bem pior serão os especuladores, que suportam a sua vida através do short-selling. Ora, estes senhores já tiveram demasiada influência na crise mundial, pelo que considero ser mais do que justo.

É preciso começar a dar mais valor ao trabalho do que às engenharias financeiras. As segundas não trouxeram nada além da acentuação do fosso entre ricos e pobres.

sábado, 22 de setembro de 2012

Morte da medida da TSU

Passaram-se 15 dias desde o anúncio do aumento da contribuição para a segurança social (de 11% para 18%) e podemos dizer que ela morreu. Pelo menos nos moldes em que estava prevista originalmente.

Tenho pena que não se tenha chegado a perceber ao certo o alcance da medida, porque nunca ninguém chegou a esclarecer em que é que isto ajudava as finanças do país... Quer dizer, minto. Fomos brindados com um António Mexia a elogiar a medida e que poderia diminuir os preços da electricidade - yeah right, como se não houvesse um défice tarifário gigantesco. Na melhor das hipóteses o preço poderia ser mantido ao nível actual durante mais uns tempos.


Há quem diga que era para ajudar as grandes empresas do PSI20, outros que dizem que é só para ajudar os bancos (como é a opinião do José Gomes Ferreira), mas cá para mim o objectivo do governo sempre foi arrecadar mais dinheiro para si próprio e passo a explicar.

Os trabalhadores e consumidores em geral já não garantem a mesma receita ao estado que antigamente, seja porque os seus salários estão a diminuir ou porque estão desempregados ou porque não gastam o seu dinheiro por medo. Daí que penso que se terá virado para as empresas. Estas tentam sempre ser lucrativas e por isso têm obrigação de ser menos receosas da crise do que o cidadão comum. Na perspectiva do estado, as empresas iriam poder contratar mais (o que significa mais receita em impostos e menos despesa com o subsídio de desemprego) ou então apresentar mais lucros no final do ano (o que significa mais receita em IRC).

Se foi esta ideia do Governo então estes senhores têm de ir para a Universidade outra vez (ou, em alguns casos, pela primeira vez). Nem lhes terá passado pela cabeça que a brutal redução do poder de compra resultaria numa retracção do consumo, que poderia não ser proporcional (no pior sentido claro). Assusta-me que estas pessoas com poder de decisão ignorem completamente o peixe pequeno e se dediquem a alimentar o peixe graúdo.